A relação entre os professores da rede privada e os donos das redes de ensino particulares se revela semelhante à situação ocorrida com a maioria das outras classes trabalhistas e seus patrões. As Convenções Coletivas do Trabalho, reuniões realizadas todo ano no mês de fevereiro com o objetivo de estabelecer um acordo entre os anseios dos trabalhadores e os interesses dos dirigentes das escolas privadas, são marcadas pelo desvio de atenção. Em um gesto de gentileza oferecem um estupendo café da manhã, conversam sobre novela e futebol, com isso, uma das duas horas de duração estabelecidas para a reunião já se passou, dificultando a discussão sobre as reivindicações apresentadas pelo setor. Quem leva vantagem é o sindicato patronal que além de desviar a atenção, ainda se recusa a atender grande parte dos interesses da classe.
Os patrões se dispõem a ouvir, mas se negam a conversar. Esse é um dos entraves para as negociações trabalhistas, entretanto, existe uma barreira ainda maior e ela nem tem origem na truculência patronal. George Rafael Maia, professor de matemática do Ensino Médio do Colégio Arnaldinum São José e Diretor do Sindicato dos Professores Particulares do Estado de Minas Gerais, Sinpro –MG, afirma que o maior problema enfrentado pelo setor é aquele cultivado pela própria classe trabalhista. É o receio que maioria dos professores tem de se mobilizar a fim de pressionar os donos das escolas.
“A indisposição para o enfrentamento revelada pela classe é conseqüência da não proibição da demissão sem justa causa no Brasil”, afirma George categoricamente. Na última convenção realizada pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), o país se recusou a assinar uma medida que visava o fim da dispensa sem justa causa. Essa atitude teve reflexos na classe dos professores da rede particular que se inibem quando o sindicato sugere uma medida mais drástica, como uma possível paralisação. “Eles têm medo de perderem o emprego”. De acordo com o diretor, o fantasma do desemprego acaba fazendo com que os professores aceitem salários e condições de trabalho abaixo da necessidade.
Idealista, como grande parte dos líderes sindicais, George vê a união da classe como o único meio para garantir a manutenção dos direitos e a satisfação dos interesses e reivindicações das classes. “Só a palavra dos líderes sindicais não adianta em nada. O que sensibiliza o patronato é a união de todos os membros da classe”, diz. “Eles precisam reconhecem a sua força”, conclui com otimismo.
O receio da categoria em enfrentar os patrões é interpretado pelo professor como algo próximo à escravidão. Segundo ele, os professores se deixaram dominar pelo medo da demissão e da falta de emprego e se acomodaram, o que acaba favorecendo os patrões. “O problema não é ficar sem emprego, mas se deixarem submeter”, argumenta George.
As últimas conquistas obtidas pela classe na última CCT e a manutenção de outros interesses do setor firmados anteriormente funcionam como um incentivo para a classe se manter e unida e reivindicar mais interesses. George aponta a manutenção do ganho real, ou seja, a reposição salarial levando-se em conta os índices inflacionários e a garantia de salário até o fim do período letivo (anual ou semestral) em caso de demissão como alguns dos motivos para a classe se organizar efetivamente a fim de conseguir alcançar a ratificação de seus grandes interesses.
O aumento nominal do salário é, de acordo com George, o maior objetivo da categoria atualmente. Já há alguns anos, na verdade, afinal, a exemplo de seus colegas da rede pública estadual, os professores da rede particular estão há 12 anos sem receber um aumento real. A concorrência entre as escolas tem sido uma das vantagens dos professores privados em relação aos do Estado. “Ter os melhores professores a fim de conquistar o aluno, faz com que os colégios particulares ofereçam altos salários”, comenta o diretor do sindicato.
Por um outro lado, George é pessimista com a concorrência. Para ele, as instituições educacionais se transformaram em empresas que visam, antes de tudo, o lucro, o que dificulta ainda mais negociações. Os patrões começam a agir como grandes empresários e começam a ouvir mais os alunos do que a própria classe trabalhista.
Questionado se as negociações pioram já que os colégios a cada dia mais disputam o aluno como um mero cliente, George não escondem, diz que sim e ainda brinca: “O cliente tem sempre razão”. “Porém, é preciso não deixar nunca de lutar”, emenda logo ele.
Como disse uma vez o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano: “A utopia está no horizonte. É preciso tentar alcança-la.”
* o título da matéria foi extraído de uma manchete do jornal “Intervalo”, de outubro de 2007, divulgado pelo Sinpro aos seus filiados.
Texto redigido para a disciplina jornalismo econômico. A pauta era entrevistar algum líder sindical.
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PS.: O motivo da opção pro um professor é óbvio. A classe não tem seus salários aumentados com o aumento dado pelo governo. As professoras da rede estadual de Minas Gerais não recebem aumento há 12 anos e ainda tem coragem de dizer que Aécio é um bom governador.
