Mislene Ferreira da Costa é vendedora ambulante. Todos os dias, às 06:30 da manhã, ela monta sua barraca recheada de verduras fresquinhas na rua Viçosa esquina com a rua Cristina, no bairro São Pedro, zona sul da cidade Belo Horizonte. Ela pertence a classe C e a sua realidade é semelhante a de outros 60 milhões brasileiros considerados pobres, o que representa uma fatia de 23,4% da população. Não fez faculdade, não tem uma renda fixa mensal e sobrevive do trabalho informal. Além disso, pode ser incluída nos 60% de trabalhadores que não são regidos pelos direitos trabalhistas. Esse número coloca o Brasil em quarto lugar como um dos países que tem um dos maiores índices de mercado informal se comparado a outros 110 países.
Para poder estar no local logo cedo, Mislene acorda às 5 horas da manhã. Ajeita as verduras dentro de uma kombi branca, ano 1989. A kombi pertence aos irmãos que, assim como ela, vendem verduras em outros bairros de classe média alta da capital. Junto com eles, ela saí de Justinópolis, distrito de Ribeirão das Neves, e percorre os 25Km que o separa de Belo Horizonte, até chegar ao bairro São Pedro. Lá, em frente ao supermercado Verdemar, em uma das regiões mais movimentadas do bairro, a moça fica em pé, atrás da barraca, até o meio-dia, quando irá encontrar com os irmãos nas bancas dos outros bairros e, juntos, percorrem o caminho inverso, com destino à cidade de Justinópolis.
Mislene cumpre religiosamente, de domingo a domingo, esta mesma rotina há pouco mais de dez anos. “É um pouco mais que isso, mas pode colocar dez para ficar mais exato”, ela diz. A moça começou junto com a mãe e aos poucos foi tomando o seu lugar. Hoje, a mãe trabalha no bairro Floresta e ela adotou o São Pedro como seu ponto de vendas.
Coberta com um plástico azul bastante precário para suportar o período de chuva desta época do ano, a barraca de Mislene está sempre abarrotada de verduras: alface americana, alface lisa, alface roxa, almeirão, couve-flor, brócolis, própolis. O preço varia, pode ir de R$ 1,00 até R$ 2,50. As verduras mais simples, alface lisa e couve, custam R$ 1,00 e o própolis, quase sempre procurado, mas raramente encontrado custa R$ 2,50. Geralmente, couve e alface disparam como os campeões de venda.
Todas essas verduras provêm de um mesmo lugar: a plantação de seu tio Ênio Ferreira da Costa. “Ele planta e nós vendemos”, explica Mislene. Ela e os irmãos compram as grades de verduras do tio e revendem. Todo o dinheiro obtido com a venda fica para ela. Os irmãos também ficam com aquilo que arrecadaram durante o dia.
O ganho diário varia de acordo com as verduras que se tem no dia. Se tem tomate, espinafre, couve-flor, ela ganha mais, se são verduras mais simples ela arrecada menos. Mas o valor retirado, por dia, fica em torno de cem reais. Porém, Mislene argumenta que, mesmo arrecadando essa quantia por dia, o valor não é o bastante. Só é suficiente para as questões úteis à sobrevivência. “Não dá muita grana, mas dá para sobreviver”.
Mislene ressalta que, atualmente, dá para ganhar apenas 0,50 centavos por cada molho de verdura que vende. Ela compra, por exemplo, uma alface por 0,50 centavos e revende por 1,00. Tem um lucro de 50%, ou seja, se vende 100,00 por dia, ela ganha R$ 1.500 por mês. Porém, ela se mostra insatisfeita e reclama “Antes, eles compravam, mas agora, não compram tanto. Só reclamam”. Como diz não ter outra coisa para fazer, ela tem que se sustentar com este serviço. A contrariedade surgiu há pouco tempo, porque ela afirma que antes, vendia muito mais do que vende hoje. “Não sei qual o motivo, mas era assim”, reclama.
As queixas de Mislene parecem incompreensíveis, quando os dados relativos às sete classes sociais brasileiras, divulgados pela pesquisa do Target Marketing, no ano passado, são analisados. Houve um aumento de 48% na renda daqueles que ganhavam as piores remunerações, algo em torno de três salários mínimos, caso este em que podemos encaixar Mislene. O inverso ocorreu com a classe média, que sofreu uma estagnação. Uma funcionária pública, provida de curso superior e lotada na Fundação João Pinheiro, ganhava, em 1995, R$ 1.283,33. Em 2006, o seu salário base registrado foi de R$ 1.591, 35. Uma queda de mais ou menos, 46% na renda mensal.
As despesas
Mislene é casada há onze anos. Mora em uma casa própria com o marido e o único filho do casal, um menino de seis anos de idade. Com o pagamento das despesas domésticas, não sobra quase nada para se gastar em lazer. Sem o menor constrangimento, Mislene revela, com naturalidade os gastos domésticos: “É gasto com menino na escola, alimentação, água, R$ 57,00 com telefone fixo e mais a luz. Minha luz vem um absurdo, mais de cem reais. E eu ainda tenho um cachorro, com o qual eu gasto cerca de cinqüenta reais todo mês”.
Porém, todas essas despesas são divididas igualmente com o marido que é motorista de ônibus. Além disso, ela ainda paga ao tio, todos os dias, a grade de verduras que irá revender. “Não dá para comprar um carro, mas sobrevivo”, encerra o assunto.
Verão chuvoso. E a plantação, como fica?
“Você não vai encontrar espinafre em nenhum dos sacolões da rua”. Essa é a resposta de Mislene a uma compradora que procurava insistentemente pela verdura favorita do Popeye.
Indagada sobre a dificuldade de encontrar a verdura neste período chuvoso ela argumenta: “O espinafre mela muito com a chuva. As verduras estragam muito, mas o espinafre é o que sofre mais”. Segundo Mislene, o alto índice de chuva, na região metropolitana de Belo Horizonte este ano, tem dado um prejuízo enorme. A perda é tão grande que para cada 1.000 pés plantados, você colhe apenas 100. “Quem vive disso, passa aperto”, diz ela.
O melhor período do ano para a plantação e a venda vai do mês de março até o mês de novembro. Já os meses do verão, dezembro, janeiro e fevereiro, além de sofrer com a inflexibilidade do tempo, ela sofre com as festas de fim ano. “O pessoal só pensa em festa, viagem, e depois vem a chuva...”
Mesmo reclamando da queda das vendas nos últimos anos, Mislene mostra-se satisfeita com a freqüência dos compradores no bairro São Pedro. Não existe um dia em que se compra mais, ou um dia em que se compra menos, o número de compradores e de vendas quase não se altera.
Segundo ela, o problema é só com os dias de chuva. Além de prejudicarem a plantação, eles dificultam as vendas.
Porém, apesar de revelar-se um pouco chateada com os problemas financeiros, ela ainda faz questão de enfatizar que gosta do trabalho e de vender. Isso se deve ao fato de poder chegar cedo em casa e sobrar tempo para fazer outras coisas. Ela cuida da casa e de seu filho. “Chego cedo, vou embora cedo e dá tempo de fazer um milhão de coisas”.
O maior problema, segundo ela, são os moradores do bairro. Apesar, de conhecer muita gente, ter os compradores cativos e até trocar receitas de comidas com alguns deles, ela reclama da exigência das compradoras. “Tem muita gente que só sabe reclamar”. Ao final, Mislene afirma que ter um serviço próprio é melhor do que trabalhar para outras pessoas.
Texto redigido para a matéria jornalismo econômico. A pauta era entrevistar uma pessoa que vivia do trabalho informal.