28 de junho de 2007

Quando a o turismo toma conta, uma boa solução é investir na própria casa

Já se passavam das 12 horas de terça-feira, 20 de fevereiro, último dia de carnaval. As pessoas, aos poucos, desfaziam suas barracas cuidadosamente montadas em um dos quinze acampamentos da Vila de Trindade. A pequena vila, habitada pela população caiçara, está situada a 28Km da cidade de Paraty e faz divisa, ao sul, com a cidade de Ubatuba (litoral norte do estado São Paulo).
Noel, o dono do camping que leva seu nome, “Camping do Noel”, acabara de chegar de Paraty e discutia com uma espécie de funcionário. “Eu já te disse para você não deixar colocar essas barracas grandes no acampamento”, era o que ele dizia ao moço, exibindo um tom de voz elevado.
Apesar de ter nascido na vila em que a única rua é a Avenida Dr. Sobral Pinto e de ser descendente de índios, Noel tem o espírito capitalista arraigado no sangue. Não gosta de barracas grandes – daquelas que possuem divisão - pois, segundo ele, elas ocupam um espaço que poderia ser perfeitamente ocupado por três barracas pequenas. Cobra estacionamento daqueles que vêm de carro e corta, sem dó, a energia dos chuveiros do camping quando percebe que os hóspedes se enfileiram para tomar banho, logo depois que o sol se põe e a praia não é mais um ambiente convidativo. O que deixa a galera revoltada: “Pó, mas a gente pagou R$ 30,00 por dia e nem direito à água quente?” O sujeito nem se importa com as reclamações e desliga a chave na frente de todos.
Ao contrário de qualquer pousada ou hotel, as diárias são cobradas por pessoa e devem ser pagas antecipadamente. Porém, ainda assim, o “Camping do Noel” é uma das opções mais acessíveis aos turistas. Ele representa uma alternativa frente ao elevado preço cobrado pelas pousadas nesta época do ano. A diária de uma pousada localizada em frente à praia, como a “Pousada Beira-Mar”, pode chegar a R$ 80,00 em períodos de alta temporada, como no carnaval.
A segurança pode ser concebida como um dos serviços oferecidos pelo camping durante a estada. Isso se deve ao fato da contratação de dois vigias que são encarregados de cuidar de todo o movimento na área do acampamento. Um deles trabalha durante o dia e, o outro, à noite. Os dois controlam a entrada de gente estranha no camping, ou seja, aqueles que não estiverem lá hospedados, se dependerem deles, não entram. Porém, ao final, é fácil burlar a segurança, embora nenhuma anormalidade tenha sido registrada durante os quatro dias de carnaval.
O camping do Noel tem capacidade para 100 barracas e está situado defronte à Praia de Fora, um dos lugares mais bonitos da vila, que tem atraído, ultimamente, uma quantidade cada vez maior de turistas.
Foi, a partir da construção da rodovia Rio-Santos, ou BR 101, no ano de 1976, que Trindade se tornou mais acessível e começou a atrair turistas de todo o país que vinham seduzidos pela beleza de suas praias situadas no meio da Serra da Bocaina, em plena Mata Atlântica. Com isso, logo após, travarem uma luta contra uma multinacional que desejava explorar os recursos oferecidos pelo lugar, os moradores da vila enxergaram no turismo uma forma de burlar a exploração. A atividade poderia funcionar como uma boa forma de conseguir algum dinheiro.
Noel foi um desses trindadeiros que percebeu que poderia ganhar algo com a vinda desses turistas. Foi então que, no início da década de 80, no ano de 1982, ele colocou o quintal de sua casa à disposição de pessoas que vinham de todo o país em busca do contato com a natureza e com a atmosfera mística do local. No início, quando o “Morro do Deus Me Livre”, trecho de subida que leva às praias paradisíacas, ainda era de terra, ele comenta que tudo era muito improvisado. “Eu abri minha casa por insistência das pessoas que vinham aqui”. Noel ressalta que nem banheiro tinha: “As pessoas faziam xixi e cocô no mato e se banhavam na praia”.
Em 90, a estrada foi asfaltada, favorecendo, assim, o aumento do número de visitantes. Percebendo o sucesso que o turismo fazia na região, Noel aumentou a área, improvisou um banheiro no meio do camping e, se antes, a diária era referente às barracas, a partir de então, elas passaram a ser cobradas por pessoa. Com o passar do tempo e com o aumento desordenado de turistas, a necessidade de uma melhor infra-estrutura se tornou imprescindível. Ele mudou a localização dos banheiros no camping e construiu mais. Hoje, existem 8 banheiros disponíveis, sendo que seis deles têm chuveiro e apenas dois, os mais disputados pelos turistas, apresentam água quente. O restante tem os fios cortados. “Tudo foi feito de acordo com a necessidade”, ressalta, a fim de explicar as melhorias do local.
Noel também colocou alguns tanques e distribuiu, por toda a área, fios, que servem como varal, item imprescindível para aqueles que curtem uma praia durante todo o dia e precisam lavar as roupas de banho sujas de areia e sal.
Não existe em Trindade qualquer Posto Policial, o que facilita o uso de drogas em qualquer lugar da vila. Porém, Noel é avesso ao uso dessas substâncias dentro de seu camping. Além de repetir incansavelmente para qualquer um que lá decida se hospedar que é proibido fumar maconha, está escrito na parede externa dos banheiros e na parede de sua casa algo como: “Drogas não respeite o bom ambiente” ou “Uze suas drogas bem longe daqui. Qui. Qui.” (usar com “z” mesmo). Ele afirma não gostar que se faça uso dessas substâncias no acampamento, uma vez que, seus filhos ainda estão muitos novos e, principalmente, devido às pessoas que lá se hospedam. “São pessoas importantes. Eu quero que aqui seja um lugar tranqüilo e que não dê motivo para se falar mal daqui”, argumenta.
Indagado se dava para tirar muito dinheiro, sem hesitar, Noel responde que sim. Com um sorriso estampado rosto, ele diz: “Dá muito para eu sobreviver. Não preciso de mais nada. Eu só não quero mais dor de cabeça”. A dor de cabeça, ele explica, é conseqüência dos dois dias que passou em Paraty e não viu as duas barracas gigantes ocuparem um grande espaço do camping.

Noel parece estar satisfeito com os ganhos, porque mesmo se fosse dono de uma pousada, ele não estaria tão bem. “Eu estou velho, pousada dá muita dor de cabeça e aqueles que venderam suas casas para a construção pousada estão hoje, muito pobres”, explica e emenda, “Quem sabe quando meu filho crescer, ele não faça uma para ele”. A alegria de Noel parece ser imensa. Também, apesar das barracas gigantes ocuparem um espaço imenso, o camping dele estourou a capacidade. E o carnaval mais uma vez rendeu uma “graninha” boa. Não é mesmo senhor Noel?

Texto redigido para a disciplina jornalismo econômico. A pauta era formas alternativas de se ganhar dinheiro no Carnaval.


2 comentários:

Anônimo disse...

Gostaria de saber o telefone do camping do noel.
obrigado

Anônimo disse...

Também gostaria, se possível, que postassem telefone para contato.

Obrigada.